Tradições Trentinas


Escrito por Andrey José Taffner Fraga


Santa Notte


Estrela dos Reis Magos
em Rio dos Cedros*

O folclore da Santa Notte foi trazido pelos imigrantes trentinos tiroleses, na época da colonização. Trata-se de uma tradição natalina, onde um grupo de pessoas passava de casa em casa em determinada comunidade, levando consigo um presépio, que era carregado no pescoço de um dos membros, e a Estrela de David, que era toda adornada, com uma vela no centro, o que lhe dava um aspecto realmente encantador durante a noite. O grupo parava em determinada casa, pedia permissão ao dono para entrar, e contava, em forma de música-jogral, toda a história dos reis magos.

Lino Vicenzi, morador da comunidade de Caravaggio, foi um dos participantes fundador dessa tradição vinda do Tirol, que se manteve em Rio dos Cedros. Conforme o próprio sr. Vicenzi conta, essa tradição veio com os primeiros imigrantes, mas depois de algum tempo caiu no esquecimento. No final da década de 30, por iniciativa sua, foi montado um grupo que retomou o ritual. Durante a segunda guerra mundial foi novamente interrompido, sendo que depois continuou através dos anos.

O primeiro grupo da Santa Notte na comunidade Caravaggio era composto pelas seguintes pessoas: Felice Mengarda, Vittorio Mengarda, Sérgio Paoletto, Averaldo Paoletto (responsável por carregar a estrela), Cristino Barravelha, Atilio Barravelha, Solano Nicolodelli, Honório Nicolodelli, Eugenio Giovanella e Bastian Nicolodelli (que tocava gaita).

Já o segundo grupo era composto pelas seguintes pessoas: Lino Vicenzi, Mario Vicenzi, Arlindo Trisotto, Lino Trisotto, Honorio Nicolodelli, Solano Nicolodelli, Alido Nicolodelli, Averaldo Paoletto (responsável por carregar a estrela), Alberto Paoletto, Zeferino Paoletto, Frederico Mengarda, Francisco Lenzi (responsável por carregar o presépio).

O terceiro e último grupo da Santa Notte era o seguinte: Iliria (tina) Purin, Galdino Floriani (responsável por carregar a estrela), Maria Floriani, Arlindo Trisotto, Seriano Trisotto, Juvenal Vicenzi (responsável por carregar o presépio), Anita Vicenzi, Leonir Purin (tocava gaita), Sérgio Floriani, Honorina Floriani, Elzevir Nardelli, Isolde Nardelli, Ivo Carlini, Cecilia Carlini, Alcides Kretzer, Laurinda Longo, Antônio Mattedi e Maria Mattedi. Após esse terceiro grupo, a Santa Notte passaria a ser o coral típico do Circolo Trentino (atualmente denominado Gruppo Folkloristico Compagni Trentini).

O grupo começava sua peregrinação na meia noite do dia 24 de dezembro, e seguia todas as noites até o dia 8 de janeiro, a Noite da Epifania, segundo a tradição católica. Os membros do grupo eram pessoas da comunidade, seguiam com sua cantoria até certa hora da noite, depois iam para casa dormir, afinal, dia seguinte a lavoura os esperava.


Valle dei Mocheni (Trentino)**

Apenas nos finais de semana é que cantavam a noite inteira. Costumavam parar a cada sete casas para descansar e se alimentar do que era oferecido pelo dono da casa.

Essa tradição é relembrada com muita nostalgia por parte dos moradores mais antigos da cidade. Conta-se que o evento era esperado com grande alegria, e sempre encantava a todos, especialmente as crianças, que ficavam ansiosas pela chegada dos músicos. Não apenas no Caravaggio, mas em todas as comunidades de Rio dos Cedros existia ao menos um grupo da Santa Notte.

O grupo da Santa Notte continuou por vários anos sendo que, em 1989, passou a integrar o Circolo Trentino e, em 1994, trocou seu nome para Gruppo Folkloristico Compagni Trentini, passando a ser o coral do Circolo Trentino di Rio dos Cedros. O grupo atualmente foca seu repertório em canções típicas e folclóricas, mas, em algumas ocasiões, ainda relembra o folclore da Santa Notte, uma das mais belas e autênticas tradições de nossos antepassados.

 



Le Mascherate (As Mascaradas)

Muito comum em diversos vales trentinos, as "mascaradas" se consistem em brincadeiras carnavalescas nas quais poderia ser representada uma pequena peça (como no Tesino), poderia se representar uma passagem da adolescência para a vida adulta (como no Valle dei Mocheni), ou poderiam ser feitos desfiles (como no Valfloriano) e assim por diante.

Em Rio dos Cedros essa brincadeira também era comum, feita em forma de teatro, mas aqui não possuía qualquer outro sentido a não ser o de uma saudável brincadeira.

 


Mascaradas (Rio dos Cedros) Le Mascherate (Trentino)**


Desfile Grupo Dom Bosco em Rio dos Cedros

 

Il Filò

Outra tradição trazida pelos imigrantes. Nas aldeias trentinas, o filò era realizado no inverno, quando diversas famílias se reuniam na casa de alguém ou em outro lugar que fosse aconchegante e quente. As mulheres se entretinham com trabalhos de tear e os homens fumavam ou debulhavam espigas. Enquanto faziam isso, todos conversavam sobre assuntos locais, ou, na maioria das vezes, contavam histórias sobre tempos idos ou sobre coisas que aconteceram. Foi nesses ambientes do filò que surgiram as diversas lendas que hoje fazem parte da tradição oral trentina.


Il Filo (Trentino)**

O filò era o local de socialização onde os jovens podiam conversar e paquerar, onde as comadres e os compadres podiam por a conversa em dia (no filò sempre haviam homens e mulheres, nunca apenas um ou outro). Do filò é que surgiam as diversas regras e costumes que regiam a vida nas distantes aldeias perdidas nos longínquos vales trentinos.

Algo tão costumeiro naturalmente veio junto na bagagem cultural dos imigrantes. Em Rio dos Cedros, da mesma forma, o filò (também denominado de farfilò, que significa, fazer o filò, ou seja, realizar o encontro) era um encontro de famílias, onde os adultos conversavam, os jovens paqueravam e as crianças brincavam. Também no filò é que se realizavam alguns trabalhos, como embrulhar charutos, e onde também surgiam lendas, que até hoje fazem parte do imaginário popular riocedrense.

 

* Ilustração retirada do livro de Hilário Gretter, Rio Rosina: subsídios para a sua história. Blumenau: Odorizzi, 2005, p. 88.
** Ilustrações retiradas do livro COLLANA DI MONOGRAFIE “LA PATRIA D´ORIGINE”. Canti e racconti: espressioni popolari del Trentino. Trento: Casa Editrice Panorama, 1992.

 


Desenvolvido por: Renan Taffner e Andrey Taffner
Agradecimentos: Marcel L. Zanluca